CONFISSÕES NO ESPELHO
Final de semana. Estou só! Ao fim da jornada diária da casa tomo um
banho. Refresco a cabeça e aproveito pra relaxar o cansaço. O silencio
faz doer a alma. Ecos gritantes de uma triste solidão.
Apesar do dia claro, o vento frio faz-me arrepiar o corpo. Visto-me
lentamente, enquanto os pensamentos trabalham em busca de algumas
respostas. Diante do espelho observo o meu rosto marcado pelo tempo.
Marcas de expressões cravadas cruelmente, como a castigar, por ter até
aqui vivido. Encaro os meus olhos, mais apertados ainda, pela tristeza
que de mim toma conta. Noto que algumas lágrimas começam a cair, sem
que possa conte-las.
Nossa! Assustei-me. Talvez tenha sido a primeira vez em 26 anos, que me
encaro de tão perto, que fixo meus olhos neles. Percebi o quanto sou,
(ridícula), acreditando ainda, que alguém possa gostar de mim. Como?
Velha, feia, vazia, pobre... Com certeza não é esse o perfil, que os
homens buscam e querem.
Veio-me imediatamente a cabeça, a imagem do meu (namorado?) e
naquele momento, entendi o quanto ele se sacrifica pra estar comigo de
vez em quando, (quando as desculpas, já esgotaram o repertório). Aí,
talvez as pessoas me perguntem: e por que ele faria isso? Talvez por se
sentir culpado, ou, por não querer fechar o “parquinho de diversões”.
Porque, num momento de carência, num ato impensado, a minha vida
tomou rumos inimagináveis. Ele não contava que apesar dos anos que
vivi distante, sem vê-lo, continuava amando-o. Ainda conservava aquele
amor adormecido, por quase 30 anos.
Fechei os olhos. Talvez assim, não enxergasse o pior; o quanto estou
errada, em me meter no meio da relação dele com a mulher. Porque é
dela que ele realmente gosta. Por ela, ele é capaz de sacrificar a vida;
viver a margem, a espera de um minutinho de atenção de sua parte.
Aquele maldito espelho, (colocado à contra gosto, na entrada de meu
quarto), obrigou-me, naquele momento conturbado, a encará-lo. Fez-me
entender que as minhas loucas infantilidades, tem um significante motivo:
Eu não vivi; esses 23 anos, eu vegetei e por isso acreditei que o tempo
não havia passado.
E agora? Que faço com a minha vida? Como dizer ao meu coração, que
tudo não passou de um engano da parte dele? Tenho sentido dia a dia
seu distanciamento. Já chegamos ao cúmulo de limitar nossos encontros,
há um tempo corrido, escondido dentro do quarto. Não há mais
oportunidade para falarmos de nós, dos anseios, da vida. Agora o carro
fica distante e percebo seu constrangimento ao sair, pelo medo de ser
visto.
Já não tenho como sonhar, quando vejo meu castelo desmoronando
diante de meus olhos. Estou sentindo, como se o tempo todo quisesse
alcançar algo, que sempre se distancia mais de mim. E assim, minha vida
tem continuidade. Com poucas diferenças de uma página triste, que
pensei ter deixado pra trás. Continuo tendo um relacionamento quase que
fictício, um namorado, que realmente não sei se o tenho, ou, como me
referir a ele. Entra dia e sai dia, eu, a espera de um sinal, uma disposição,
pra que ele venha. As minhas vontades e desejos, jamais podem sobrepor
as dele. Onde quer que vá, jamais pensar em tê-lo como companhia. Fins
de semana? Tenho que morrer. Porque no lar sagrado, onde a deusa
habita e se faz presente, minha entrada, até em pensamento é proibida.
Não pode haver máculas. O homem que procura a pecadora, algumas
vezes na semana, se transforma no mais puro fã, a venerar o belo
espetáculo da amada.
Meu desespero é maior, quando me vejo e percebo o quanto triste estou.
Quanto venho sentindo a necessidade, de acabar com essa dor de amar,
sem ser amada. De ser só, quando supostamente tenho um namorado.
Sei que sou a outra, a amante, mas não sei ser isso e não quero passar
meus últimos anos de vida assim. Preciso ir muito mais além. Preciso que
me afague nas horas de angustia, me faça companhia, que sorria as
minhas alegrias e me aperte nas horas de loucura e desejos. Que durma
em meus braços, e sem constrangimento sair abraçada, ou, de mãos
dadas. Que me ame acima de tudo. E que eu possa, em qualquer lugar
fazê-lo sonhar, com os meus mais loucos beijos.



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